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A mostrar mensagens de Agosto, 2018
"A Minha Família do Norte", de Dany Boon

Dany Boon permanece plenamente interessado em tornar regionalismos em matéria prima cómica. Em encenar pequenos contos familiares, que convoquem os preconceitos e estereótipos mais comuns na sociedade francesa contemporânea. Sempre com gentileza, ternura e benevolência. O seu cinema declaradamente popular, assume componentes francamente caricaturais e cartoonescas, no entanto, nunca ambiciona insultar ou magoar. Afinal, para o cineasta nortenho está mesmo em causa, brincar com temas que sempre o acompanharam.

Em “A Minha Família do Norte”, reencontramos aquela França bucólica, que o viu nascer e crescer, e já marcou mesmo um dos seus títulos mais célebres (o fenómeno “Bem-Vindo ao Norte”, um dos maiores sucessos financeiros de todo o cinema europeu), para acompanhar a árdua odisseia de um reputado arquiteto vanguardista, que sempre procurou eliminar quaisquer sinais da existência de uma família modesta, para manter a imagem de requinte …
Destaque da Semana: "A Minha Família do Norte"

Realização:Dany Boon
Argumento:Dany Boon, Sarah Kaminsky
Elenco:Dany Boon, Line Renaud, Laurence Arné, Valérie Bonneton, Guy Lecluyse, François Berléand, Pierre Richard
"Ana, Meu Amor", de Călin Peter Netzer

A entrada no século XXI, marcou também a exposição mais ou menos massificada de duas cinematografias europeias, que tradicionalmente tinham pouca expressão no estrangeiro. Ambas conseguiram mesmo conquistar o direito a uma outra presença e visibilidade nos festivais e mercados internacionais, arrebatando até alguns prémios importantes. Posto isto, coincidentemente ou não, ambas parecem funcionar como um contraponto perfeito da outra. A primeira ambicionou desmontar normas sociais, com base num surrealismo francamente satírico, mas, eternamente desencantado. A segunda excluiu quaisquer artifícios estéticos ou narrativos, e abraçou um realismo austero e contundente. E, porque é mesmo acerca dos filmes romenos que temos podido ver, que nos debruçamos hoje, digamos que esse é um olhar que conhecemos desde obras valorosas como “A Morte do Sr. Lazarescu” ou “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, e que voltamos a encontrar em “Ana, Meu Amor”, quarta lo…
"Corredor Assombrado", de Rodrigo Cortés

Rodrigo Cortés continua a evocar as matrizes dos seus autores prediletos para contar histórias, que lhe são muito pessoais. Em “Enterrado”, concebeu um thriller digno de Alfred Hitchcock, sem nunca abandonar o perímetro de um caixão. Já “Red Lights: Mentes Poderosas”, seguia o caminho de M. Night Shyamalan (particularmente, de “O Protegido”), numa narrativa que desmontava todos e quaisquer clichés, pautando-se sempre pelo inesperado. Agora, com “Corredor Assombrado”, rumamos aos recantos mais lúgubres da filmografia do seu conterrâneo Alejandro Aménabar (pensamos em “Os Outros” ou “Regressão”), numa experiência que procura aproximar-se dos artifícios da fábula, por via do terror.

A história acompanha Kit (AnnaSophia Robb), uma adolescente problemática, que nunca aceitou o falecimento prematuro do pai. Desesperada com o temperamento progressivamente mais agressivo da filha, a mãe aceita o conselho da psiquiatra escolar, e conclui que a m…
Destaque da Semana: "Corredor Assombrado"

Realização: Rodrigo Cortés
Argumento: Michael GoldbachChris Sparling
Elenco: AnnaSophia RobbUma Thurman, Isabella Furhman
"Vendeta", de Coralie Fargeat

Auspiciosa primeira longa-metragem de Coralie Fargeat, “Vendeta”, encontra as suas raízes simbólicas numa vaga de cinema de terror francófono (“Raw” ou “Evolução”, seriam outros exemplos recentes), tão interessada em providenciar sanguinolência constante, como em passar uma mensagem sociopolítica. Neste caso, fala-se da misoginia, e do domínio sistemático que os homens aparentam exercer sobre as mulheres, nos mais variados contextos. Ou seja, uma temática importantíssima, que adquire uma relevância acrescida, num período em que proliferam movimentos como o #MeToo.

Tudo começa com uma simples viagem (como muitas vezes acontece nos melhores contos de terror). Richard (Kevin Janssens) é um empresário americano, que anualmente foge à monotonia de um casamento infeliz, para uma caçada no deserto, com dois colegas de trabalho gauleses, Stanley (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède). No entanto, este ano, Richard escolheu partir dois dias mais …
Destaque da Semana: "Vendeta"

Realização: Coralie Fargeat
Argumento: Coralie Fargeat
Elenco: Matilda Lutz, Kevin Janssens, Vincent ColombeGuillaume Bouchède
"Coexistir não é Fácil", de Fabrice Éboué

Aquando do lançamento de "Happy End" e "A Ciambra" (ambos ainda em cartaz), falávamos acerca de um aparente "movimento", digamos assim, emergente na cinematografia europeia em explorar os temas mais complexos e marcantes do atual panorama sociopolítico. Ou seja, filmar não aquilo nos une, mas, o que nos separa. Em "Happy End" era a classe, o dinheiro (em contraponto, tudo acontecia em Calais, zona conhecida pelo elevado fluxo de refugiados). A tragédia de três gerações de uma família burguesa, que perdera a capacidade de comunicar. Em "A Ciambra", mergulhávamos numa Calábria infernal, onde pairavam os fantasmas da raça (de um lado, os ciganos, de outro, os africanos, no meio a máfia local que usava e abusava de ambas as fações). Era um conto de monumental tristeza, que nos conduzia até um submundo, onde a vida era pré-definida à nascença, e os sonhos implacável e prontamente seriam sem…
"Missão: Impossível - Fallout", de Christopher McQuarrie

Recentemente, quando Hollywood escolhe continuar uma franquia, os resultados tendem a cair numa monotonia constante e francamente cansativa. Olhemos para “Vingadores: Guerra do Infinito” ou “Mundo Jurássico: Reino Caído” e facilmente encontramos preocupantes evidências de um desinvestimento criativo generalizado. Desta maneira, sentimos mesmo a necessidade de questionar se é possível eventualmente deparar com blockbusters, que não se limitem à mera acumulação de clichés entediantes e truques envelhecidos? E a resposta é francamente afirmativa. Ou seja, “Missão: Impossível - Fallout”, novamente assinado por Christopher McQuarrie, que também assinara a aventura anterior, cujos eventos são diretamente seguidos neste sexto capítulo.

A história é relativamente simples, e resumindo de maneira necessariamente esquemática, podemos dizer que tudo começa com uma missão falhada, que culmina numa situação em que Ethan Hunt (Tom Crui…
"A Ciambra", de Jonas Carpignano

Jonas Carpignano nasceu em Nova Iorque, e a sua existência faz-se entre os EUA e Itália. Foi acolhido por Sundance, e reputados autores como Chris Columbus e Martin Scorsese, não ocultaram o tremendo fascínio que o seu trabalho desencadeou neles (o último assume mesmo funções de produtor executivo aqui). No entanto, o mesmo permanece interessado em negar ofertas de Hollywood, para continuar a fazer um cinema etnográfico, não alinhado nas atuais tendências supostamente "modernas", e mantendo-se antes apostado num realismo social, eminentemente humanista, que procura retratar o quotidiano de comunidades fechadas sobre si mesmas. De entrar em universos desconhecidos, sem preconceitos, nem julgamentos.

Na primeira longa-metragem, Mediterrânea, encontrávamos Abas (Alassane Sy) e Ayia (Koudous Seihon), uma dupla de refugiados do Burkina Faso, que procuravam um a vida melhor em Itália. Em “A Ciambra”, retomamos o cenário calabrês a que ess…
Destaque da Semana: "A Ciambra"

Realização: Jonas Carpignano
Argumento: Jonas Carpignano
Elenco: Pio Amato, Koudous Seihon, Damiano Amato
"Happy End", de Michael Haneke

O cinema espelha o mundo em seu torno. Como tal, será somente natural, que encaremos os filmes que vemos, e as tendências que os mesmos reflitam, enquanto evidências de preocupações contemporâneas, que exijam a nossa atenção. Olhando para 2018, existem três filmes que aparentemente não estariam imediatamente relacionados, mas acabam mesmo por funcionar como uma requintada e inquietante trilogia. Falamos de “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” (Yorgos Lanthimos), “Hereditário” (Ari Aster), e “Happy End” (Michael Haneke). Os dois primeiros empregam ferramentas classicamente enraizadas nas mecânicas do cinema de terror (uma figura misteriosa, possuidora de poderes sobrenaturais, e uma maldição relacionada com um culto pagão, respetivamente), enquanto o terceiro opta pelo tom dramático extraordinariamente frio, que marca todos os trabalhos do seu autor, contudo, um olhar atento denota as desconcertantes semelhanças. Todos acompanham famílias burguesas…