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"Happy End", de Michael Haneke

O cinema espelha o mundo em seu torno. Como tal, será somente natural, que encaremos os filmes que vemos, e as tendências que os mesmos reflitam, enquanto evidências de preocupações contemporâneas, que exijam a nossa atenção. Olhando para 2018, existem três filmes que aparentemente não estariam imediatamente relacionados, mas acabam mesmo por funcionar como uma requintada e inquietante trilogia. Falamos de “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” (Yorgos Lanthimos), “Hereditário” (Ari Aster), e “Happy End” (Michael Haneke). Os dois primeiros empregam ferramentas classicamente enraizadas nas mecânicas do cinema de terror (uma figura misteriosa, possuidora de poderes sobrenaturais, e uma maldição relacionada com um culto pagão, respetivamente), enquanto o terceiro opta pelo tom dramático extraordinariamente frio, que marca todos os trabalhos do seu autor, contudo, um olhar atento denota as desconcertantes semelhanças. Todos acompanham famílias burguesas…
"Um Pequeno Favor", de Paul Feig

Habituámo-nos a encarar Paul Feig unicamente como um encenador de simpáticas comédias em tom feminino. De “A Melhor Despedida de Solteira” a “Caça-Fantasmas”, passando por “Armadas e Perigosas” e “Spy”, a sua missão aparentava mesmo ser a de aniquilar o lugar comum, que definia o género como um território exclusivamente masculino. Os resultados sempre se pautaram por um certo nível de qualidade, e esse é mesmo um estupendo quarteto de deveras suculentos "nacos" de entretenimento escapista, mas, nenhum deles ia muito além disso. Ora, também, por esse motivo, é tão surpreendente vê-lo aos comandos de um exercício tão requintado e perverso como “Um Pequeno Favor”, crónica social, centrada nas infinitas ambiguidades do fator humano, que tem tanto de thriller psicológico como de desconstrução satírica.

Tudo se passa no interior do ecossistema parental de uma pequena vila. Stephanie Smothers (Anna Kendrick) é uma jovem e inocente viúva, que…
"Suspiria", de Luca Guadagnino

Aquando da passagem de “Suspiria” (2018) pelo Festival de Veneza, Luca Guadagnino autodescreveu-se como “a stalker of master filmmakers”, e aproveitou a ocasião para partilhar um caricato episódio da sua adolescência, que comprovaria esse mesmo título. Quando tinha apenas 14 anos, viu “Suspiria” (1977) em Palermo, e abandonou a projeção em estado de êxtase. Nos dias que se seguiram, falou incessantemente do filme em causa a todas as pessoas com quem se cruzava, até que um conhecido lhe segredou que o seu autor, Dario Argento, costumava almoçar num restaurante relativamente próximo. O resultado? Pois bem, Guadagnino, nem sequer dedicou uns meros segundos a pensar acerca do assunto, preferindo limitar-se a correr em direção ao estabelecimento, e encostar a sua face ao vidro, para contemplar o seu ídolo enquanto comia.
Porventura, parecerá anedótico (convenhamos, tem a sua piada), no entanto, a génese do pensamento do italiano como cineasta encerra-…