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CRÍTICA - "NIGHTMARE ALLEY - BECO DAS ALMAS PERDIDAS"


Em 1947, o romance de William Lindsay Gresham, "Nightmare Alley - Beco das Almas Perdidas", recebeu o tratamento cinematográfico, cortesia do cineasta Edmund Goulding, com Tyrone Power enquanto protagonista. A produção não teve a vida facilitada, até porque as normas castradoras da época não permitiram a Goulding explicitar algumas das componentes mais perturbadoras da obra de Gresham, mas o filme acabou por ser alvo de uma receção crítica e comercial respeitosa, ainda que desprovida de grande entusiasmo.

Passados 75 anos, Guillermo del Toro surpreendeu muita gente ao decidir revisitar o beco titular. Afinal, o cinema do realizador mexicano nunca tinha abandonado os elementos sobrenaturais que representam um papel determinante nos seus títulos prévios. No entanto, quaisquer receios de que "Nightmare Alley" pudesse representar uma possível descaracterização do universo simultaneamente terno e cruel do autor de "O Labirinto do Fauno" e "A Forma da Água" dissipam-se logo nos primeiros minutos, quando constatamos que, mesmo sem monstros à espreita, continuamos naquele universo perversamente comovente, em que os prazeres primitivos da fábula se assumem como a única maneira de retratar a dureza da realidade.


Tudo começa quando Stanton Carlisle (Bradley Cooper), um carismático, mas azarado vigarista, abandona um quotidiano que se assume violento e se junta a uma feira itinerante. Lá, tornar-se-á num membro relativamente amado daquela comunidade, tornando-se num protegido da vidente Zeena (Toni Collette) e do seu marido Pete (David Strathairn) e apaixonando-se pela bela e inocente Molly (Rooney Mara), contudo, a sua ambição desmedida levá-lo-à por caminhos pouco recomendáveis, inadvertidamente aproximando-se da sombra de tragédia que o parece assombrar incessantemente.

Como é costume nos filmes de Del Toro, é inevitável não constatar a qualidade irrepreensível de toda a equipa técnica, a começar no fotografia deliciosamente antiquada de Dan Laustsen, convocando o gosto pela velha tradição do film noir, à cenografia de Tamara Deverell, sem esquecer o guarda-roupa luxuoso e ocasionalmente excêntrico do luso-descendente Luís Sequeira e a banda-sonora enigmática de Nathan Johnson, este cruzamento de sensibilidades providencia uma vibração muito física todos os elementos que nos faz sentir os cruéis contrastes da América da Grande Depressão, em vésperas da Segunda Guerra Mundial, Del Toro nunca omitiu a sua resistência aos cenários gerados digitalmente, insistindo sempre na necessidade de criar locais que consigam reproduzir aqueles que o argumento convoca e, escusado será dizer, que essa decisão é absolutamente crucial para a conceção estética e narrativa de toda a sua obra.


No entanto, importa também não alimentar a ideia de que os filmes de Del Toro se resumem a "abstrações" de teor esteticista, este é, afinal, um olhar particularmente contundente sobre a natureza ilusória do Sonho Americano e o caráter destrutivo da ambição desmedida, recuperando a matriz clássica da tragédia grega para encenar a odisseia de alguém que vai enfrentar as contradições de um tempo social em que a crueza dos factos é mais forte que as ilusões teatrais de uma qualquer transcendência.

O realizador consegue a proeza de expor um território da mais pura estranheza, sem nunca menosprezar os sinais específicos da época e, sobretudo, as singularidades das personagens. Empolgante, eloquente e sempre enigmático, Nightmare Alley é um filme eminentemente clássico, talvez até diabolicamente anacrónico, no cuidado com que trata todas as figuras secundárias, para mais servidas por uma galeria de brilhantes atores. Aqui encontramos, entre outros, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Rooney Mara e David Strathairn, mas quem rouba as atenções é Bradley Cooper, compondo um anti-herói tão vulnerável como irascível, que se conta mesmo entre as suas melhores performances.

★ ★ ★ ★ ★
Texto de Miguel Anjos

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