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"O Farol", de Robert Eggers Aquando do lançamento de Hereditário , Ari Aster mencionou o seu fascínio por O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela . Porquê? Dizia ele, que o filme lhe parecia tão insondavelmente malévolo, que conseguia mesmo encapsular em si a crueldade do mundo. “Nunca conheci o Peter Greenaway, mas suspeito que seja uma pessoa horrível”, comentava o realizador. Obviamente, Aster terminou essa observação num tom brincalhão, contudo, isso não invalida o surpreendente brilhantismo do seu raciocínio. De facto, existe uma estirpe de obras acerca das vicissitudes da existência humana que, durante um par de horas, nos sequestram e aprisionam num infindável poço de negrume, recusando-se veementemente a mostrar-nos qualquer tipo de luz. Títulos como O Homem Que Queria Saber , O Laço Branco ou Goodnight Mommy . Em 2016, o aclamadíssimo A Bruxa , ou The VVitch: A New-England Folktale , foi encarado por muitos como um desses filmes. Mas estavam errad...
"À Porta da Eternidade" Estamos no coração da temporada de prémios. Isto é, Hollywood quer prestar homenagem aos talentos que se reuniram para produzir o cinema que mais lhes agradou em 2018. Como tal, proliferam as biografias, quase sempre convencionais, desapaixonadas e vazias de conteúdo. No entanto, por vezes, existem surpresas. Pequenos acontecimentos que insistem em desafiar todos e quaisquer rótulos que lhes queiram impor. “À Porta da Eternidade” é um deles. Porquê? Pois bem, porque em vez de se limitar a colecionar os momentos mais emblemáticos da vida de Vincent van Gogh, Julian Schnabel propôs-se a mergulhar na mente do pintor e deixar-se contagiar pelos seus fantasmas. O filme assume-.se, portanto, como um objeto limite, que parte da solidão primordial do protagonista para relançar a ideia romântica da arte como rutura de qualquer visão determinista ou moralista da experiência humana. Acima de tudo, Schnabel ambiciona e consegue colocar-nos no corpo pe...
"Vox Lux", de Brady Corbet Que papel desempenha o espetador nos filmes que escolhe experienciar? Porventura, assemelhar-se-á a uma pergunta meramente académica, interessante apenas para os mais obsessivos teóricos. No entanto, qualquer autor digno desse honroso título necessita de conseguir assumir uma posição perante tamanha interrogação. Uns encaram o seu público como um conjunto de participantes ativos num processo de reflexão, outros como confidentes a quem é possível comunicar até os desejos e incertezas mais obscuros. Escusado será dizer, ambas opções viáveis e potencialmente fascinantes. Contudo, o caso de Brady Corbet é outro. Aos olhos do californiano, o ato mais poderoso que pudemos levar a cabo é mesmo limitarmo-nos a ver e assumir a posição de “testemunhas”. Na sua primeira longa-metragem, “A Infância de um Líder” , guiávamo-nos pelos corredores da luxuosa residência de uma família burguesa, na Europa do Século XX, cujo quotidiano ia sendo lentamente cont...
Crítica: "The Florida Project" Muito além de meras narrativas, os filmes de Sean Baker assumem-se como elucidadores guias ilustrados, de microcosmos muito particulares, sem condescendências, nem clichés. E, depois do muito aclamado “Tangerine” lhe abrir as portas para a indústria, o americano escolheu regressar aos seus pequenos contos, com uma vibração indie que apetece chamar de “artesanal”, de modo a encenar a contundente odisseia veranil de uma menina precoce. Chama-se Monee e, vive com a mãe e os amigos, num motel decrépito, a escassos passos do Walt Disney World, em Orlando, Florida. Assim, esta é a história desse curioso, poder-se-ia mesmo dizer, irónico cruzamento, entre um reino mágico de sonhos e, a brutalidade da vida quotidiana de quem “não tem onde cair morto”. Os nossos pequenos protagonistas sabem muito bem, que nunca conseguirão atravessar a rua e, visitar o parque de diversões em causa, como os milhares de turistas, com que se deparam constant...
Destaque da Semana: "The Florida Project" Realização: Sean Baker Argumento: Sean Baker , Chris Bergoch Elenco: Brooklynn Prince , Bria Vinaite , Willem Dafoe
"Sete Irmãs" ("What Happened to Monday"), de Tommy Wirkola Quem conhecer o cinema do norueguês Tommy Wirkola, poderá ficar espantado com esta sua nova longa-metragem. Afinal, o autor, que sempre evidenciou um gosto genuíno pelo grotesco e macabro, encontra-se aqui num registo adulto e sério, que os seus antecessores nunca antecipariam. Nada mais, nada menos, que uma ficção-cientifica orwelliana, acerca de sete irmãs, que necessitam de seguir regras extremamente rígidas, para sobreviver num futuro, onde a sobrepopulação tornou criminal ter mais de um filho. Premissa, no mínimo, sugestiva, que o realizador de clássicos de culto como “Dead Snow” e “Dead Snow: Red Vs Dead” transforma num thriller de série B, de primeiríssima linha, como os americanos tão bem sabiam fazer há uns anos e, entretanto parecem mesmo ter esquecido. É uma bela surpresa, ancorada em sete extraordinárias performances de Noomi Rapace (uma pequena dose de Willem Dafoe, também ajuda sempre,...
Crítica: "Como Cães Selvagens" ("Dog Eat Dog"), de Paul Schrader Argumentista de clássicos intemporais como Taxi Driver ou O Touro Enraivecido (ambos assinados por Martin Scorsese), Paul Schrader é também um realizador permanentemente apostado em criar objetos cinematográficos contundentes, que consigam fugir às fórmulas mais convencionais, que dominam uma certa fatia da produção americana atual. Às vezes, acerta em cheio e outras falha redondamente, mas nunca parou e quase anualmente vemos novas obras suas. E, nesse sentido, encontramos Como Cães Selvagens como uma espécie de OVNI no nosso circuito comercial. Simultaneamente, uma crítica descontrolada a uma indústria politicamente incorreta e cheia de moralismos (as experiências de Schrader com os estúdios americanos não são as melhores) e uma homenagem apaixonada aos clássicos, que outrora nasceram no seu interior (pensamos numa série B, feita com alguma elegância e requinte, que floresceram nos EUA...
Trailer: "The Florida Project", de Sean Baker