Os tempos áureos do noir encontram-se no passado, portanto, entende-se que quando um realizador contemporâneo tenta produzir um filme nessa tradição, o faça num registo de homenagem. Nada contra. Afinal, à custa dessa exaltação dos valores de modelos de produção “extintos” já se fez excelente cinema. No entanto, de vez em quando, é bom que alguém demonstre interesse e capacidade para subverter códigos previamente estabelecidos e, no processo, providenciar-nos experiências que se distingam pela maneira como desafiam as nossas certezas. É o caso de A Cor da Ambição, do italiano Giuseppe Capotondi. A enigmática história de um crítico de arte caído em desgraça (Claes Bang) que pensa ter encontrado uma maneira de fugir à sua condição quando um colecionador ganancioso (Mick Jagger) lhe faz uma proposta irrecusável. Pelo meio, há uma possível femme fatale (Elizabeth Debicki) e um artista que vive num regime de inclusão autoimposto (Donald Sutherland) que, de uma maneira ou outra, vão forçar o protagonista a questionar-se acerca do seu carácter numa situação que lentamente se vai tornando doentia. Belissimamente interpretado por um estupendo quarteto de atores e apoiado no argumento deveras eloquente de Scott B. Smith, A Cor da Ambição evidencia-se como um thriller de recorte superior, que reinventa uma premissa tipicamente policial como um baile de máscaras, onde ninguém consegue criar uma conexão genuína com o outro, sem necessitar de recorrer à mentira. Acima de tudo, o filme de Capotondi é um jogo de indagação íntima que lança uma pergunta tão simples quanto insólita: num mundo em que a moral não importa, para que serve a verdade?
Não devemos ter medo de exaltar aquilo que nos parece "personificar", por assim dizer, um ideal de perfeição. Consequentemente, proclamo-o, sem medos, sem pudores, "Flow - À Deriva", do letão Gints Zilbalodis é um dos melhores filmes do século XXI. Um acontecimento estarrecedor, daqueles que além de anunciar um novo autor, nos providencia a oportunidade rara, raríssima de experienciar "cinema puro". O conceito é simultaneamente simples e complexo. Essencialmente, entramos num mundo que pode ou não ser o nosso, onde encontramos apenas natureza, há resquícios do que pode, eventualmente, ter sido intervenção humana, mas, permanecem esquecidos, abandonados, nalguns casos, até consumidos pela vegetação. Um dia, um gato, solitário por natureza, é confrontado com um horripilante dilúvio e, para sobreviver, necessita de se unir a uma capivara, um lémure-de-cauda-anelada e um cão. Segue-se uma odisseia épica, sem diálogos, onde somos convidados (os dissidentes, cas...
Contemporâneo de Martin Scorsese, Steven Spielberg e Francis Ford Coppola, Paul Schrader nunca conquistou o estatuto de "popularidade" de nenhum desses gigantes... e, no entanto (ou, se calhar, por consequência de), é, inquestionavelmente, o mais destemido. Em 1997, "Confrontação", a sua 12ª longa-metragem, tornou-se num pequeno sucesso, até proporcionou um Óscar ao, entretanto, falecido James Coburn. Acontece que, o mediatismo não o deslumbrou, pelo contrário, Schrader tornou-se num cineasta marginal, aberto às mais radicais experiências (a título de exemplo, mencionemos "Vale do Pecado", com Lindsay Lohan e James Deen). Uma das personas mais fascinantes do panorama cultural norte-americano, parecia ter escolhido uma espécie de exílio, até que, "No Coração da Escuridão", de 2017, o reconciliou com o público. Aliás, o filme representou o início de uma espécie de trilogia, completada por "The Card Counter: O Jogador", em 2021, e "O ...
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