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Crítica: "The Face of an Angel" ("O Rosto da Inocência"), de Michael Winterbottom




Realização: Michael Winterbottom
Argumento: Paul Viragh
Género: Drama
Duração: 101 Minutos
Classificação Etária: M/16
Data De Estreia (Portugal): 17/09/2015

Nome grande do cinema britânico, o superprolífero Michael Winterbottom ("24 Hour Party People", "A Cock and Bull Story", "O Assassino em Mim"), reaparece nas nossas salas de cinema com uma obra de indescritível brilhantismo: "O Rosto da Inocência" (título original: "The Face of an Angel"). Uma hábil mistura de géneros (thriller, docudrama, introspecção onírica, sátira ao vampirismo da imprensa e da indústria de Hollywood, entre outros), através da qual o cineasta foi buscar inspiração ao mediático caso de Meredith Kercher, a estudante inglesa assassinada em Itália, em 2007, para construir uma fascinante meta-narrativa sobre o amor e a inocência (representada pela personagem de Cara Delevingne, que simboliza a juventude assassinada por esta história), mas também sobre a violência e a morte.

Thomas Lang (interpretado por um ator de génio chamado Daniel Brühl) é um realizador que viaja até à cidade toscana de Siena para fazer uma pesquisa para um filme sobre o crime (vislumbra-se aqui um possível alter ego de Winterbottom). No entanto, a ausência de certezas nos factos apurados não lhe inspiram uma abordagem possível, nem mesmo pela ficção. Mais do que uma história dentro de uma história, "O Rosto da Inocência" é uma história sobre outra história. Uma drama, com atmosfera de thriller e uma veia poética, que agarra, faz pensar e, por fim, comove. Em suma, cinema ousado e auto-reflexivo, que merece ser visto.


Classificação: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10
Texto de Miguel Anjos

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